Primeira mulher a assumir a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de seu município, a produtora Maria Aparecida prova a competência da mulher do campo
Agricultora, casada, mãe de três filhos e com uma história de superação e liderança. Essa é Maria Aparecida Machado Silva, de 45 anos, que tem se dedicado para a valorização e maior participação da mulher na vida da comunidade Quilombola do Córrego do Rocha, em Chapada do Norte, na região Norte de Minas Gerais.
Maria Aparecida é daquelas pessoas que não conseguem ficar paradas. Para se ter uma ideia, ela foi a primeira mulher presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município, em 2011. Cargo que exerce pela terceira vez. “Nunca uma mulher negra havia conseguido isso. Muitas pessoas trabalharam contra. Mas eu decidi enfrentar o desafio”, diz.
Além dos desafios do cargo, a agricultora disse que nunca se descuidou da família. Apesar dos compromissos como presidente do sindicato, ela sempre acompanhou de perto os três filhos, com a ajuda de sua mãe, dona Terezinha Lemos, que hoje tem 79 anos. “Eu me dividia entre o papel de esposa e mãe. Não deixei de cumprir o que eu tinha de fazer com a minha família”, afirmou. A agricultora também é presidente da Associação Comunitária União Quilombola do Córrego do Rocha desde 2009.
Em sua gestão nas duas entidades, com a parceria da prefeitura e outros órgãos, a comunidade conquistou melhorias, como o transporte escolar em dois períodos para as crianças e jovens, a abertura e manutenção de estradas, a construção de bacias de captação de água de chuva e de cisternas para superar a escassez de água. “ O Córrego do Rocha não tem mais água. Estamos buscando resolver esse problema com parcerias com outras entidades”, conta a presidente do sindicato.
Outro ponto importante é a organização de encontros de mulheres pelo o sindicato que ajuda a valorizar e estimular a participação delas nas decisões da comunidade. Os eventos abordam temáticas como saúde, políticas públicas, previdência e direitos da mulher. “Algumas sofriam violência doméstica e nem sabiam. Conseguimos mudar a realidade de algumas mulheres com autoestima e sobre a importância da mulher. Nós nos conhecemos melhor e nos tornamos mais fortes”, ressalta Maria Aparecida.
A agricultora também é membro titular da Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha (Coquivale), suplente da direção do Polo do Alto Jequitinhonha da Federação do Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg), sendo assim membro Comissão de Mulheres da mesma instituição.
Na comunidade Quilombola do Córrego do Rocha, todos vivem de maneira simples, como a família de Maria Aparecida. Na propriedade dela, a produção de mandioca é a principal. Mas também se produz milho, hortaliças e frutas. Tudo para o consumo próprio ou para trocar com os vizinhos. Como Maria Aparecida disse, a escassez hídrica tem sido uma dificuldade para produzir alimentos.
Emater-MG
As famílias contam com a Emater-MG, empresa vinculada à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), para obter a Declaração de Aptidão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (DAP). Cerca de dez famílias conseguiram recursos do programa.
“Esse dinheiro ajuda a movimentar a economia da cidade, da família. Esses recursos acabam ajudando as famílias a adquirir pequenos animais, ração e até caixa d’água”, diz o extensionista da Emater-MG, Lindomar Machado Siqueira.
Como tudo começou
Maria Aparecida nasceu na comunidade Quilombola do Córrego do Rocha. Aos 13 anos já ajudava na colheita de café. Pouco tempo depois, foi trabalhar na casa de uma família na área urbana de Chapada do Norte. Aos 18 anos, ela teve depressão. “Comecei a passar mal dentro da sala de aula. Entrei em pânico. Diziam que eu estava louca. A família me mandou para a casa dos meus pais”, conta.
A agricultora diz que os próprios pais, na época, não compreendiam o que ela estava passando e que, por isso, foi mais difícil enfrentar a situação. A superação veio com tratamento médico e muita fé. “Eu fui muito na igreja. Eu fui resgatada por Deus. Eu também já nasci com uma persistência”, relata Maria Aparecida.
Aos vinte anos, Maria Aparecida teve seu primeiro filho. Cinco anos depois ela se separou do pai da criança. Algum tempo depois, Maria Aparecida casou-se com seu atual marido, José de Souza Silva. Ele é mais velho que ela 30 anos. Do relacionamento nasceram dois filhos. Um rapaz e uma moça.
Foi nessa época que a agricultora decidiu participar mais ativamente dos destinos de sua comunidade. Antes de se tornar presidente, ela já frequentava as reuniões do sindicato. “Eu questionava bastante”, lembra. Mas um dos primeiros trabalhos voltados para a comunidade foi pela Associação Municipal Chapadense de Assistência ao Trabalhador Rural e à Infância, em 2003. Entre as diversas atividades voluntárias pela entidade cristã, Maria Aparecida atuou, por exemplo, na alfabetização de jovens e adultos.
Depois disso, ela não parou mais, chegando, como já mostrado, a se tornar uma liderança na sua comunidade. Apesar de mostrar a força e a importância da mulher no campo, a agricultora pensa que ainda há muito mais espaço para elas ocuparem. “Algumas estão mais conscientes do papel delas na comunidade. Mas, outras, não. Ainda estão muito tímidas. Tem mulher que ainda precisa da autorização do marido para ir à cidade. Mas tenho fé que isso vai mudar”, completa.
Sebastião Avelar - Ascom/Emater-MG
Foto: Arquivo da família