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Passo da Ceia

Atualizado em 06/05/2019 às 12:44

Passo da Ceia

De acordo com a tradição religiosa, a Ceia é a última refeição que Jesus Cristo fez com seus apóstolos, durante a qual prenunciou a traição de Judas. Na bênção ritual, Jesus pegou o pão e disse aos apóstolos: "Tomai e comei, este é o meu corpo". O mesmo fez com o vinho: "Este é o meu sangue derramado por muitos." Os dois gestos incorporaram-se à liturgia e permanecem até hoje como símbolo da comunhão cristã. Na ocasião, Jesus lavou os pés de seus discípulos, para lhes dar exemplo de humildade e de caridade fraterna.

O Passo da Ceia abre os trabalhos do escultor, arquiteto e entalhador Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e do pintor Manoel da Costa Athaíde, na série da Paixão, no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG). Sua capela é mais antiga do conjunto e a única a ser construída durante a estada de Aleijadinho em Congonhas, possivelmente sob a sua orientação.

As imagens do Passo da Ceia em Congonhas são um autêntico drama teatral, conforme a tradição barroca. À palavra acusadora de Cristo ("Em verdade vos digo, um de vós me há de entregar"), os apóstolos, transtornados, voltam-se bruscamente para sua figura. Dois servos, postados lateralmente à porta de entrada, realizam a transição entre o espaço real   do espectador e o espaço físico, no qual se movimentam os atores.

Um desses servos, o da direita, veste-se pitorescamente à moda setecentista com colete justo e casaco cintado, abotoado na frente, num dos raros exemplos de liberdade tomada por Aleijadinho com relação à iconografia tradicional, que mantém túnicas longas e mantos para os personagens evangélicos, indumentária típica das populações mediterrâneas.

Do ponto de vista arquitetônico, a capela da Ceia supera todas as outras em qualidade de execução e perfeição de acabamento. Seu volume externo se resume a quatro muros de alvenaria caiados de branco. Uma pequena cartela em pedra-sabão, emoldurada por ornatos de contas de rosário, permite ler uma inscrição em latim, cuja tradução é a seguinte: "Enquanto ceavam, tomou Jesus o pão (e disse); Este é meu corpo." (Mateus, cap. 26, v. 27).

A identificação dos apóstolos se torna um pouco difícil, posto que nenhum deles traz atributos específicos. Apenas Judas, Tadeu, Pedro, Tiago Maior e João podem ser reconhecidos com segurança.

Todas as peças são em cedro e em tamanho próximo ao natural. A maioria é constituída de um único bloco, com exceção das mãos, que são móveis, fixadas por cavidades nas mangas. As únicas esculturas completas são os dois servos e os quatro primeiros apóstolos, mais diretamente visíveis. As restantes, de meio corpo e escavadas na parte posterior, repousam em suportes dissimulados por detrás da mesa elíptica.

A predominância de tons pastéis se deve à opção feita por Manoel da Costa Athaíde de colorir apóstolos e personagens sagrados em tons claros e finalmente matizados, reservando as cores fortes e agressivas para os algozes de Cristo.

Fontes: Secretaria de Turismo de Congonhas e Dicionário Cultural da Bíblia (Edições Loyola, 1998)